quinta-feira, 24 de abril de 2014

Separação sem dor é possível?

Segundo o filósofo (*) Platão, nascemos com a consciência ferida. E, seria por essa dor inata, que instintivamente buscamos o alívio.
 
O prazer e a dor sempre andam de “mãos dadas”...

E quem há de dizer que nunca se encontrou em tal situação?
Somos parte de um “mito original” que nos põe em contato com a “perda do paraíso”, tão logo chegamos ao mundo. Saímos do mais puro aconchego do ventre das nossas mães, e, passamos a enfrentar todo o sofrimento e adversidades que há em vida.

Essa primeira ruptura é a locomotiva que chega, conduzindo os outros muitos vagões, aos quais, seguramente embarcamos.
 
 (*) Zeus, em sua fúria sangrenta, quando separou o homem em dois, os condenou a eterna culpa, por desejarem a fusão com aqueles que amam, e, consequentemente, ao enorme fardo de eternamente procurarem a cura da sua própria natureza.

Somos vulneráveis aos sentimentos dolorosos, que sempre nos chegam à troca de algo que se foi. Assim, ao longo da vida, vamos sendo “marcados” por verdadeiras e profundas escavações, em razão das muitas separações. Porque, quando as vivemos, algo em nós se dilacera!

É a grande iniquidade da vida a nos aplacar:_ Perdemos o que amamos, e, ganhamos o que detestamos e nos fere. E, deste modo, não somente conhecemos a dor em nossa consciência, como de fato a experimentamos, também, em nosso corpo.

Sofremos um “desmaio silente” da nossa carcaça, que se traduz em intensa dor, bem como àquela da alma.

Condenados assim às infindáveis separações, experimentamos, até a nossa finitude, a dor de sempre vermos os nossos amores pisando em direção as trevas da consciência.

São João da Cruz, poeta espanhol e místico cristão, escreveu no século XVI um famoso poema, A Noite escura da alma, onde se pode perceber a tradução do experimento doloroso que padecemos, quando nos separamos, e, a dificuldade do desapego e a busca do desenvolvimento interior:
 _ “Onde te escondeste amado, e me deixaste gemendo? Fugiste como um cervo, depois de me haver ferido. Sai atrás de ti, mas já havias partido... Pastores que forem além dos montes, se encontrarem aquele que eu mais quero, diga-lhe que adoeço, sofro e morro”.

Em meio às muitas desordens e perdas que nos ataca de forma contínua, e, frente à certeza indubitável de não encontrarmos a felicidade em sua plenitude, quando nesses nossos trajetos, conscientes da nossa incompletude, devemos fazer a nossa própria reinvenção. 

Fazer uma reunião de todos os péssimos sentimentos que ficam e, transformá-los em novas pulsões e outras formas de alegrias, de modo a nos livrarmos da dor primitiva: _A separação dolorosa!

domingo, 9 de março de 2014

A cura para a alma!

As “doenças da alma” sempre acompanharam os homens; e há milênios atrás, do mesmo modo que hoje, existiram pessoas que procuravam a fórmula para resgatar o “bem-estar”. Uma velha e devotada busca para uma alma saudável.

Quando nos sentimos tristes, sobretudo, ansiosos, damos a nós próprios, o diagnóstico de “alma doente”. Reagimos de forma semelhante quando estamos frente à outra enfermidade qualquer. E saímos à procura de algo que nos deixe aliviados, enfim, curados.

E, existe remédio para a alma?

O filósofo grego, (*) Epicuro, em alusão a “cura da alma”, sugeriu metaforicamente, o Tetrafármaco – do grego “tetrapharmakos” - para que nos livrássemos das “angústias do viver”. Quem utilizasse esses quatros “remédios”, voltaria a se sentir feliz. Em harmonia com a vida.

Tal sugestão, naquela época, era considerada a “chave” que exporia os mistérios do mundo, com garantias da felicidade dos homens.

A primeira recomendação que comporia os ”medicamentos” era “não temer aos Deuses”, porque, em razão das suas muitas ocupações, obviamente, eles jamais se importariam conosco, mortais pouco significantes, em comparação às suas questões Divinais.

Além disso, como parte dessa milagrosa composição, os homens também deveriam “não temer a morte”, já que, enquanto temos a vida, a morte “não há”. Portanto, não poderíamos experimentá-la. E, quando ela então chegasse até nós como tentativa de algo nos significar, não a conheceríamos, uma vez que já não mais existiríamos. Que somente “sentimos”, quando vivos estamos.

A outra indicação era a de que se deveria “educar os sentidos”. Observar melhor e mais atentamente os experimentos da vida, para obter uma melhor compreensão do “bem”.  Que seria fácil encontrá-lo, mas, para tanto, necessitaria que as pessoas se fizessem em seus próprios catequizadores. Instruindo as suas percepções de forma simples, porém efetiva, em direção a essa procura.
           
Ainda, como o último componente do famoso remédio, seria preciso conceber que “o mal não perdura”. Que era preciso entendê-lo como “autolimitado”. É lógico que, com prazo de validade desconhecido, mas, que chegaria até nós com uma energia que se esvai, uma vez que “tudo se movimenta”. Assim sendo, durante essa ação, haveria a interrupção, e a barganha, do mal com o bem.

Contudo, seríamos hoje capazes de acrescentarmos em nós, esse tipo de filosofia moral?

Talvez, jamais saberemos se a nossa fé é a única responsável por nossos destinos. No entanto, sentimos a nossa alma livre de perturbações quando tememos a Deus. As nossas vidas são alimentadas pelas religiões, onde cada um de nós segue a procura da sua própria felicidade, a partir da crença de um “ser onipotente”.

Fomos desenvolvidos, de modo a cultivarmos o medo do desconhecido, e, talvez por isso, nunca tentamos oferecer à morte, um majestoso sentido.  Creio que deveríamos idealizar o nosso dia a dia. Adornar todos os nossos instantes, seja através de um sorriso dedicado ou uma doação sincera. Jamais esquecermos que a vida não se dissipa junto com os grãos de areia do deserto, ou da ampulheta que gira suave e constantemente.

O filósofo Daniel Lins, homem avesso ao caminho único da vida rumo à morte, disse:_ “E se a morte for uma bela arte”? 

Portanto, temos a opção de vermos a morte como vida também. E, a nossa vida nunca terá um fim, se a incitarmos para que ela seja sempre um início.

A capacidade de percebermos as nossas próprias emoções, por ser pessoal, se consome por ela própria, em meio às muitas nuances de sentimentos. O que nos fere, fazemos retumbar ao mundo, em diferentes dialetos de dor...

A cada um de nós, cabem as nossas próprias verdades e as nossas próprias dores. A cada um de nós, cabem as nossas próprias compreensões do bem, oculto por entre as nossas indisposições.

Resta-nos ainda, indicarmos os nossos próprios remédios. Com doses certas, de Deus, Vida e Esperanças, para que sejam enfraquecidas as moléstias das nossas almas.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O autoconhecimento como felicidade.


Os princípios do autoconhecimento vêm desde vários séculos AC, porém, há pessoas que passam por toda uma vida ignorando essa situação.

Deixam a “vida levar”, do mesmo modo que um barco solto ao mar, sem velas, partindo a nenhum norte.  E ficam a serviço do imprevisto, em direção ao desconhecido.

Não procuram se conhecer, e assim, despreparados para encarar as adversidades, passam por muitos momentos de infelicidade.

Mas, porque devemos estar conscientes do que está por vir, e enfrentarmos os infortúnios da vida? E, como nos disporemos para tais fatos?

No oráculo de (*) Delfos, no templo de (*) Apolo, na antiga Grécia, a inscrição: _ “Conhece-te a ti mesmo”, fez com que (*) Sócrates, o filósofo, ao analisá-la, concluísse que só seria sábio quem reconhecesse a sua própria ignorância.                     

Para o filósofo, o conhecimento mora em nossa alma...

E, mesmo dizendo que ele seria o homem mais sábio já existente no mundo, não concordou, e tão somente, sabedor da sua inteligência, e a partir daí, passou a manter diálogos com aqueles que se consideravam “conhecedores de tudo”.

Em suas retóricas, ele as indagava e as estimulava a se julgarem, para que pudessem descobrir, legitimamente, e por elas mesmas, possuidoras e conhecedores das suas afirmações.

Portanto, se dentro de nós existe a mais pura essência - fator necessário para o nosso entendimento - como uma maneira de lidarmos com situações inesperadas, devemos agir de forma livre, ordenada.  Baseados nas nossas racionalidades para então obtermos os caminhos de felicidade, que nos competem.

Quando esquematizamos, nos sentimos organizados, e preventivamente não nos perturbamos com os acontecimentos inesperados, considerando que, nas frestas dos nossos supostos conhecimentos, também se encontram os enganos.

Eles permanecem camuflados nas “entrelinhas das subjetividades”, e, se assim considerarmos, e nos mantermos preparados, não nos tornaremos os “seres do medo”, inseguros e abatidos. O que se mostra claramente à nossa frente é apenas o óbvio da objetividade. E, não há graciosidade nisso; apenas o sabor insosso da vida!

Conhecendo-nos de modo sistemático, poderemos transpor as nossas dores e nos encontrarmos com o prazer. Mas, o “simples prazer”, e não aquele ornamentado com imoralidades. O prazer de uma proximidade com a natureza, e com o deleite essencial e natural.

A busca pelo autoconhecimento não significa uma tentativa de conhecer o futuro, é lógico, mas, sim de nos deixarmos ser impulsionados para uma boa reação diante dos obstáculos que se instalam a nossa frente.

Na música do cantor (*) Zeca Pagodinho, onde diz: “deixa a vida me levar, vida leva eu”... ”Só posso levantar as mãos pro céu, agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu”... Manifesta nitidamente, a preguiça do “pensar”, do “saber” e reagir.  Comprova ainda, o mau uso do tempo e do conhecimento, onde nada é acrescido ao nosso interior.

E, ainda como exemplo na aludida canção, os que dizem: _ “Eu já passei por quase tudo nessa vida. Em matéria de guarida espero ainda a minha vez”... Não seriam tolos e presunçosos, bem como àqueles que se acham invencíveis e detentores de todo o conhecimento?

 (*) Platão, o discípulo de (*) Sócrates aconselhou: _ “Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida”.

Assim sendo, devemos nos ouvir com zelo, até exaurir os nossos íntimos, através do nosso autoconhecimento, com prudência e racionalidade. Não deixarmos que “ondas” nos levem, por coisa nenhuma e por ninguém. Entretanto, que sejamos os nossos próprios guias a nos conduzir até aonde realmente desejamos estar... Impregnados de felicidade!
                                                                                                                                                                                               

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